sexta-feira, 20 de maio de 2011

Recordando o Paquete "Vera Cruz" - Com video raro do Vera Cruz a navegar


Caros,

Hoje é dia da marinha, e para o comemorar venho-vos apresentar este post sobre o primeiro dos 4 grandes paquetes nacionais, o paquete "Vera Cruz".


O paquete Vera Cruz foi um dos mais famosos navios da Companhia Colonial de Navegação. Com duas turbinas a vapor e casco em aço, foi construído em 1951 pelos estaleiros da Société Anonyme John Cockerill, em Hoboken, Bélgica.
Destinava-se à carreira da América do Sul, para transporte de passageiros e de carga, e ocupou um lugar significativo na história da emigração portuguesa para o Brasil. Estava equipado com modernos aparelhos de radar, com alcance de 30 milhas, agulha giroscópica e piloto automático. Os passageiros, que se podiam alojar em três classes. Dispunha de salas de cinema, jardim de Inverno, piscina e hospital. 

Dispunha de camarotes para 8 pessoas em classe de luxo, 190 em primeira, 200 em segunda e 844 em terceira, num total de 1242 passageiros. Desenvolvia uma potência de 25.500
cavalos, atingindo uma velocidade máxima de 22 nós. O seu comprimento era de 185,50 m e a boca máxima cerca de 23 m.


Na viagem inaugural, iniciada a 20 de Março de 1952, com destino ao Rio de Janeiro, teve como passageiro de honra o almirante Gago Coutinho. Era o início de sua viagem inaugural na Rota de Ouro e Prata e que o levaria a atravessar os dois Atlânticos, Norte e Sul, com destino aos portos sul-americanos do Rio de Janeiro, Santos, Montevidéu e Buenos Aires.
Para identificar os detalhes técnicos relativos à construção e às características desses dois novos transatlânticos, irei transcrever partes do texto do historiador marítimo português Luís Miguel Correia, do livro: Paquetes Portugueses (publicado em Lisboa em 1992 pelas Edições Inapa):
 
"De concepção extremamente avançada para a época, o Vera Cruz e o Santa Maria foram os primeiros paquetes portugueses, uma vez que todos os navios de passageiros anteriores eram unidades mistas de passageiros e carga. Pelas suas dimensões e características, o Vera Cruz e o Santa Maria eram grandes paquetes de prestígio, cuja imponência e elegância representavam condignamente Portugal em qualquer porto do mundo."

"A construção destes navios marcou um período de ressurgimento da marinha de comércio nacional, que, passados 40 anos, podemos classificar como a fase de maior desenvolvimento da história dos transportes marítimos portugueses desde a introdução do vapor."

"Sem querer pôr em causa as limitações do sector, que existiam efectivamente, foi possível renovar a nossa frota mercante com a aquisição de navios novos, adequados às necessidades do país, de que o Vera Cruz e o Santa Maria foram os melhores exemplos."

"Ligado a estas realizações, é justo referir o então ministro da Marinha, comandante Américo Thomaz, conhecedor profundo dos assuntos ligados à marinha mercante, a cujo desenvolvimento dedicou perto de duas décadas de trabalho."

"Com cerca de 20 mil toneladas, 20 nós (37,5 quilômetros horários) de velocidade e lotação para 1.200 passageiros, os gêmeos Vera Cruz e Santa Maria marcaram uma época."

"A concepção e planeamento do Vera Cruz obrigaram os técnicos do Estaleiro John Cockrill a 86 mil horas de trabalho."

"A pré-fabricação começou no início de 1950, tendo-se procedido o assentamento da quilha do Vera Cruz em 13 de maio deste ano."

"O navio foi lançado à água a 2 de junho de 1951, efetuando-se na mesma data o assentamento da quilha do Santa Maria. Foi madrinha do Vera Cruz dona Gertrudes Thomaz, esposa do ministro da Marinha."

"Na construção do Vera Cruz, foram utilizadas 8 mil toneladas de aço e 150 toneladas de alumínio, sendo instalados no navio 240 quilômetros de cabos elétricos e 96 quilômetros de encanamentos. Estiveram envolvidos na construção do Vera Cruz cerca de 1.000 técnicos e operários, que trabalharam durante 18 meses."

"Navio-almirante da marinha mercante portuguesa e da frota da Companhia Colonial de Navegação, o Vera Cruz foi entregue à CCN a 23 de fevereiro de 1952, no porto de Antuérpia (Bélgica), depois de concluir com êxito as provas de mar."

 
"Além de ser o maior navio português, o Vera Cruz era também a maior unidade até então construída na Bélgica, tendo assistido à cerimonia de entrega do paquete as individualidades mais importantes daquele país. Comandado por Hilário Filipe Marques, o Vera Cruz deixou Antuérpia a 28 de Fevereiro, chegando a Lisboa a 2 de Março de 1952. Durante a estadia no Tejo, o Vera Cruz foi visitado pelas grandes figuras do regime, com destaque para o presidente da República, general Craveiro Lopes, presidente do Conselho de Ministros, dr. Antônio de Oliveira Salazar."

"Cada um dos dois hélices de três pás do paquete pesava 16 toneladas e o Vera Cruz consumia 140 toneladas de fuel oil (óleo combustível) e 200 toneladas de água por cada dia de navegação. Foram instalados a bordo os mais modernos aparelhos de ajuda à navegação, nomeadamente agulha giroscópica, piloto automático, odômetro elétrico, radar com alcance de 30 milhas (55,5 quilômetros), radiogoniômetro, sonda e radiotelefone."

"Os interiores deste paquete eram considerados luxuosos para a época, incluindo numerosos salões, bares, cinemas, jardim de inverno, duas piscinas e amplos tombadilhos e solários, hospital com cinco enfermarias, salas para crianças e todas as facilidades consideradas necessárias para um grande transatlântico, incluindo ar condicionado."

"Henri Boulanger e Andrade Barreto foram os responsáveis pela decoração dos interiores do Vera Cruz, em que colaborou grande número de artistas portugueses."

"No seu conjunto, os interiores do Vera Cruz proporcionavam um ambiente luxuoso e confortável, mas pesado, traduzindo o gosto da época e um certo conservadorismo estético, em contraste com uma muito maior simplicidade e profusão de cores dos paquetes Augustus e Giulio Cesare, construídos na mesma época na Itália, igualmente para a carreira da América do Sul.

Sala de Jantar - Clicke na foto para ampliar
  "O Vera Cruz tinha 350 tripulantes, dentre os quais 38 oficiais."

 
Muitos estão lembrados, ou já ouviram falar, da grandiosa despedida do Vera Cruz ao deixar Lisboa na sua viagem inaugural, rumo ao Brasil. Mas, poucos saberão como foi a recepção do outro lado do Oceano Atlântico.
A primeira escala do Vera Cruz ao Brasil deu-se no sábado, dia 29 de março de 1952, no Rio de Janeiro. Como a Imprensa havia noticiado com antecedência a chegada do famoso transatlântico, a cidade despertou cedo, milhares de pessoas aglomeraram-se na Praça Mauá e nas proximidades do porto.

Devido a forte nevoeiro, houve um atraso e somente após as 12 horas foi feita a atracação do tão esperado paquete português.

Brasileiros e portugueses, sob sol ardente, esbanjavam alegria, sem conter seu entusiasmo. Nunca um navio de qualquer nacionalidade foi tão bem recebido.

Ainda na Baía da Guanabara, o navio todo engalanado, sob comando de Hilário Filipe Marques e tendo a bordo o armador Bernardino Corrêa, viu-se cercado de várias embarcações, que apitavam incessantemente. O que era prontamente respondido pelo Vera Cruz, como que saudando a terra amiga, que por sua vez se enchia de sol para recebê-las à altura.


 Bandeiras portuguesas e brasileiras estavam desfraldadas em seus mastros. De terra os foguetes explodiam, dando um tom festivo. A alegria era geral.

No local de atracação, bandas tocavam e a orquestra de bordo retribuía. No cais, o povo explodia de júbilo e entusiasmo, e a bordo acontecia o mesmo.


Os passageiros que desciam do navio foram recebidos com muito carinho e amizade por parte dos curiosos que foram assistir ao "espectáculo".

A bordo vinham várias autoridades e celebridades, a convite da Companhia Colonial de Navegação (CCN). Entre elas o almirante Gago Coutinho, os senhores comandantes Enrique Tereiro, Pereira Viana e Francisco Fialho; o coronel Antônio Manuel Batista; o capitão Teófilo Duarte e outras pessoas de destaque, além de jornalistas dos principais jornais de Portugal.

Também a rainha do fado Hermínia Silva e a Missão Cultural Portuguesa, formada por escritores, professores e historiadores, que foi o alvo de homenagens dos círculos intelectuais do Rio de Janeiro.


As solenidades oferecidas pelos brasileiros aos ilustres visitantes portugueses foram tantas que é quase impossível enumerá-las.

Entre elas, o banquete do Itamarati, as recepções na Academia Brasileira de Letras, na Reitoria da Universidade do Brasil, no Clube Ginástico Português, no Liceu Literário Português.


O presidente do Brasil, à época, Getúlio Vargas, acompanhado de sua esposa, Darcy Vargas, almoçou a bordo do Vera Cruz, a convite da embaixada de Portugal.

Com grande jantar oferecido pela CCN, à colónia portuguesa e à sociedade carioca, foram encerradas as comemorações. O armador Bernardino Corrêa, em breves palavras, saudou os portugueses e brasileiros, de quem tantas atenções recebeu.

O maior paquete português da época navegou rumo a Santos, na madrugada de 3 de Abril (quinta-feira), chegando à barra por volta das 13 horas.

Guardadas as devidas proporções, a recepção calorosa dada ao Vera Cruz em Santos não ficou atrás da do Rio, milhares de portugueses e brasileiros, vindos de São Paulo, reuniram-se com seus conterrâneos residentes em Santos para festejar e testemunhar o acontecimento.

Por volta de 14 horas, o novíssimo transatlântico é abordado pela lancha do Serviço de Praticagem, e a bordo sobe Gérson da Costa Fonseca, que na época era prático preferencial da CCN, através de seu agente em Santos, a Companhia Comercial Marítima.


"Em 40 anos de actividade em Santos como prático, nunca vi nada igual, como a chegada do Vera Cruz. Conduzir o navio pelo canal do porto, através da grande manifestação de júbilo popular, com milhares e milhares de pessoas acenando das amuradas da Ponta da Praia, outras embarcações apitando e os gritos emocionados de alguns passageiros, tudo isto deixou-me uma recordação inigualável", diz o ex-prático do porto.


Após a atracação no cais próximo ao Armazém de Bagagem, o transatlântico foi aberto para visita de autoridades, convidados especiais e representantes da Imprensa paulista e santista, aos quais foi oferecido o tradicional aperitivo de boas-vindas.
  
No dia 4, o navio foi aberto para o público em geral, formaram-se filas no cais para visitar o novo orgulho da marinha mercante Portuguesa.
No dia seguinte, a CCN ofereceu um almoço a bordo às principais autoridades de Santos, comparecendo o então prefeito municipal, Francisco Luiz Corrêa; o presidente da Câmara Municipal, Antônio Moreira; o capitão dos Portos do Estado de São Paulo, comandante Raja Gabaglia; e outras personalidades de destaque.
À noite, a CCN ofereceu banquete de gala ao governador do Estado de São Paulo, Lucas Nogueira Garcez, acompanhado da esposa, do chefe do cerimonial do Palácio Campos Elíseos e dos secretários do Governo em várias pastas; do comandante da região militar e do capitão dos Portos.
Após dois dias e duas noites de permanência no Porto de Santos, o Vera Cruz zarpou em direcção ao Rio da Prata, com escalas em Montevidéu (Uruguai) e Buenos Aires (Argentina).

Da data de sua viagem inaugural, até 1954, o Vera Cruz permaneceu servindo a Rota de Ouro e Prata ao lado do gémeo Santa Maria, com saídas alternadas dos portos "cabo-de-linha", Lisboa e Buenos Aires, a cada três semanas.

A partir de julho de 1954, o Vera Cruz passou a servir também a linha da CCN para a América Central, com escalas em Vigo (Espanha), Funchal (Ilha da Madeira), Tenerife (Ilhas Canárias), La Guaira (Venezuela), Curaçao (Antilhas Holandesas) e Havana (Cuba).

Junto com o Santa Maria, alternaram-se, ora servindo a carreira das Caraíbas e América Central, ora cobrindo escalas na Rota do Ouro e Prata segundo as melhores necessidades operacionais e de rendimento determinadas pela direção da armadora.

Em 1957 faleceu o fundador e animador principal da CCN, o armador Bernardino Corrêa, e nas viagens que estavam em curso, todos os navios da companhia colocaram a bandeira no mastro de popa (ré) a meio-pau.

Com o deflagrar dos conflitos da independência das colónias em Angola e Moçambique, a partir de 1960, o Estado português viu-se na obrigação de reforçar militarmente as colónias na tentativa de conter e eliminar os focos de resistência à ordem estabelecida.

Assim, no decorrer de 1961, várias unidades da marinha mercante de Portugal foram requisitadas pelo governo para servirem como transporte de tropas ou como navios de carga de material bélico.

O Vera Cruz não escapou à nova realidade e, ao retornar a Lisboa de sua viagem, a que seria na verdade a última, na Rota de Ouro e Prata (efetuada em março e abril daquele ano), o transatlântico foi rapidamente adaptado para as funções de navio-transporte e posto sobre o controle operacional da Marinha de Guerra, sempre, porém, com as cores da CCN.


 Seguiu-se a partir de então um longo período onde alternaram-se viagens sob o comando naval e viagens puramente comerciais, a maioria destas realizadas entre Lisboa e Lobito/Luanda (Angola).
Esta fase durou até 1971. Em janeiro do ano seguinte, o transatlântico, após realizar uma viagem como transporte de tropas, foi ancorado no Rio Tejo, aguardando-se a decisão sobre o futuro.

Tal decisão só foi tomada um ano mais tarde e ela marcaria o fim do transatlântico. Após 20 anos de sua entrada em serviço, sendo portanto relativamente novo e ainda em condições de serviço, o Vera Cruz foi vendido para desmonte e sucata a uma empresa empresa especializada de Taiwan.


 Em 4 de março de 1973 largou pela última vez as amararas do cais de Lisboa com destino a Formosa, desaparecendo assim dos oceanos, mas não de nossa memória, que lhe guarda recordação perene.

Fotos: Luis Miguel Correia (retiradas ao acaso da Internet) 
Texto: Paquetes Portugueses, diversos blogs e artigos.

 FICHA TÉCNICA


Vera Cruz:

Outros nomes: nenhum
Bandeira: portuguesa
Armador: Companhia Colonial de Navegação (CCN)
País construtor: Bélgica
Estaleiro construtor: Societé Anonyme John Cockerill
Porto de construção: Antuérpia
Ano da viagem inaugural: 1952
Tonelagem de arqueação (t.a.b.): 21.765 t
Propulsão: 2 grupos de turbinas, com 2 hélices
Comprimento: 185,75 m
Boca (largura): 23 m
Velocidade máxima: 23 nós (42 km/h)
Passageiros: 1.242
Classes: 1ª -    148
                2ª -    250
                3ª -    844
Tripulação: 350 homens, sendo 38 oficiais
Fonte: CCN e LLoyd's Register


2 comentários:

  1. Da grandeza de uma nação de Marinheiros, que nos resta??De um dia para o outro passamos de falcões a piscos e ainda enaltecemos os operadores de tal transformação;
    Para o melhor e o pior de facto somos uma nação anormal.

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  2. eramos uma grande nacao...hoje uma provincia de europa...

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