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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Recordando o Paquete Infante D. Henrique

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Esta é a história de um navio que outrora foi o navio almirante da nossa frota de Marinha Mercante, refiro-me , como não podia deixar de ser ao "Infante Dom Henrique".
Vivemos num pais de imensa tradição marítima, mas onde apenas nos preocupamos com futebol ou com escândalos políticos e nada fazemos para salvaguardarmos o que culturalmente nos pertence ou pertenceu. Tudo isto é absurdo, porque não podemos pensar no futuro sem salvaguardar o passado. A revolução de Abril de 74 deu a machadada final e nos anos que se seguiram ao terrível dia a maioria dos navios que compunham a nossa imensa frota marítima, quer de guerra quer mercante, foi vergonhosamente abatida ou doada aos movimentos terroristas nas nossas províncias africanas.
Poucos foram os casos em que entidades públicas e privadas portuguesas se esforçaram por concretizar actos de conservação do nosso património.


O "Infante D. Henrique" foi o sonho do armador Bernardino Corrêa, o fundador da Companhia Colonial de Navegação, que nunca o chegou a ver. Foi construído na Bélgica nos estaleiros da Jonh Cockeril, em Hobboken, o mesmo estaleiro onde já tinham sido construídos o Vera Cruz e o Santa Maria. A 21 de Setembro de 1961 entrou na barra de Lisboa embandeirado em arco, iniciando assim um serviço promissor para a Marinha Portuguesa. Com a sua aquisição fechou-se o ciclo de renovação da frota, iniciada ao abrigo do chamado despacho 100, elaborado pelo então Ministro da Marinha, Américo Thomaz.


O Infante era um navio clássico com a sua famosa chaminé em formato de gota de água com uma enorme grelha de ventilação na parte frontal; com os seus 195,50 m de comprimento, 24,5 de boca e 24.000 toneladas de deslocamento, atingia uma velocidade de cruzeiro de 21 nós, podendo atingir uma máxima de 22-23 nós se as condições o permitissem. Aquando do lançamento do casco de côr cinzento esverdeado, a côr tradicional da CCN, foi utilizada uma garrafa de vinho do Porto, cuja marca ninguém sabe. Talvez um «Porto Ferreira», em vez da tradicional garrafa de champanhe. A madrinha foi a esposa do administrador da companhia, que na altura, rezam os manuscritos, era José Soares da Fonseca .
Na época foi bastante criticado por ser bom demais e era o maior navio de passageiros da carreira de África.
Em qualquer porto era motivo de atracção e registo. A sua imponência e o perfil majestoso despertavam o interesse de todos os curiosos. Era um excelente embaixador português á semelhança do navio-escola Sagres.


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Já o então Presidente da República, o Almirante Américo Thomaz, gostou tanto do navio que no dia seguinte à chegada a Lisboa voltou a visitá-lo, segundo as crónicas da época. No interior, era um excelente navio, de um luxo impressionante. A decoração foi entregue a decoradores e artistas portugueses sob a responsabilidade do arquitecto José Manuel Barreto. Funcional e moderno, a luz privilegiava a amplitude dos espaços, o que tornava o navio mais bonito.
Uma estátua de bronze revestida a Ouro, do escultor Álvaro Brèe, perpetuava a figura do Infante, tendo como fundo um fresco representando o planisfério de Mecia de Viladestes, no vestíbulo da 1ª Classe.


 Na véspera do 5 de Outubro de 1961, com lotação esgotada, o Infante D. Henrique fez-se ao mar, dando inicio á sua primeira Viagem pelo Império português no continente africano.
O navio era movido por dois grupos de turbinas a vapor, que accionavam duas hélices, navegando a uma velocidade de 21 nós. Por cada dia de navegação o Infante D. Henrique consumia 150 toneladas de fuel e 200 de água. Um sistema de estabilizadores avançado neutralizava o balanço provocado pela ondulação em dias impróprios para os mais sensíveis passageiros. Dispunha de ar condicionado em todos os compartimentos e zonas de lazer, assim como um moderníssimo sistema de navegação e comunicações e de combate a incêndios.


Tinha capacidade para 1018 passageiros distribuídos por três classes: 1ª Classe, Turística e Turística B.
Além de quatro grandes salões e bares, o Infante D. Henrique dispunha de dois restaurantes, biblioteca, sala de leitura, sala de escrita e duas salas para crianças, cabeleireiro, hospital e duas capelas, cujos altares foram fabricados com pedra do promontório de Sagres. Impressionante no mínimo !

De 1961 a 1976, efectuou inúmeras viagens ao continente africano como navio de transporte de passageiros, realizou vários cruzeiros e transportou o Presidente da República Américo Thomaz em viagens oficiais.


Com a revolução de Abril e devido à situação politica nas províncias Portuguesas, as viagens alteraram-se radicalmente. Ou seja, o navio quando rumava para Sul, viajava completamente vazio e regressava cheio de espoliados e refugiados fugidos ao terroristas separatistas a quem os traidores entregaram as nossas províncias africanas.


Realizou o seu último cruzeiro ao Funchal de Dezembro de 1976 a 3 de Janeiro de 1977, ficando fundeado no mar da Palha até Maio de 1977, ano em que o GAS ( Gabinete da área de Sines) o adquiriu para acomodar alguns dos milhares de trabalhadores do complexo da área de Sines. Foi colocado numa lagoa artificial tornando-se uma presença bizarra e cara por terras alentejanas, degradando-se rapidamente.


Ao contrário do que acontecera a outros navios portugueses, cujo o fim era Kaohsiung, o cemitério de navios para a sucata, na Ilha Formosa, no ano de 1986, com o crescimento do mercado de cruzeiros no mundo, o armador grego George Potamianos adquiriu-o e transformou-o num paquete de luxo. Totalmente renovado interiormente, mantendo as linhas clássicas, o navio chegou a Lisboa em 1988, com o nome de «Vasco da Gama». Potamianos fez renascer este navio que, durante seis anos, realizou cruzeiros nas Caraíbas e deu a volta ao mundo por diversas vezes. Continuou a ser motivo de admiração e registo em qualquer porto a que aportava.


Em 1994, foi vendido á Premier Cruises, companhia americana, para cruzeiros nas Caraíbas, o seu nome foi mudado novamente para Seawind Crown. No ano 2000, ficou sedeado na Europa, em Barcelona, para cruzeiros no Mediterrâneo, mas sem grande sucesso, devido á forte concorrência de outras companhias, como a Costa Crociere, o que provocou, uma vez mais, a sua imobilização. Por falência da companhia e por ordem da Autoridade do Porto de Barcelona, o navio ficou arrestado nesse mesmo ano. O seu último comandante foi Amadeu Albuquerque.



Em Abril de 2000 o SEAWIND CROWN iniciou em Barcelona os cruzeiros da Pullmantur, que obtiveram enorme êxito e foram interrompidos inesperadamente em Setembro desse ano na sequência da falência da empresa armadora Premier Cruises, seguindo-se um longo período de imobilização arrestado em Barcelona que acabou em 2003 com a venda do navio a interesses indianos e a largada a 28-12-2003 para a China, com o nome BARCELONA e bandeira da Geórgia. O nosso antigo INFANTE DOM HENRIQUE foi desmantelado em Março - Maio de 2004 na Republica Popular da China. 

Durante os três anos que permaneceu acostado ao molhe norte do porto de Barcelona aguardando que alguém novamente o pusesse a navegar pelos quatro cantos do mundo ou simplesmente o adquirisse para o tornar num ex-libris, nenhum interessado apareceu. Encontrava-se em excelentes condições podendo assim navegar por mais uns 40 anos, mas a má sorte bateu de vez à porta e resta-nos apenas recordá-lo com orgulho e muita saudade.

Ficha Técnica

Características:
Arqueação bruta - 23 306 toneladas
Comprimento - 195.5 metros
Boca - 24.5 metros
Lotação - 1 018 passageiros
Potência - 22000 Cv
Propulsão - 2 Grupos de Turbinas, 2 veios, Hélices de 4 pás
Velocidade de cruzeiro - 21 nós
Construtor - Estaleiros John Cockeril, em Hobboken,

(fonte: "100 anos 100 barcos"  Museu de Marinha, 2000)

Fases da vida do Navio

1961 - 1977


 1988 - 1995


1995 - 2004


Ao meu amigo Alváro Forra...

Luís Passos

domingo, 30 de janeiro de 2011

Recordando o paquete Principe Perfeito

Baptismo e Lançamento à água

Viagem de cruzeiro

PRINCIPE PERFEITO foi construído em Newcastle-upon-Tyne, Inglaterra, no estaleiro Neptune por Swan Hunter & Higham Richardson, Ltd., (construção nº 1974), por encomenda da Companhia Nacional de Navegação, autorizada para o efeito pelo Governo Português (Despacho nº 88 de 6-04-1956, do ministro Américo Thomaz), na sequência de requerimento apresentado pela CNN a 29 de Fevereiro. O contrato com o estaleiro construtor seria assinado em 18-07-1957. Pelo Despacho nº 72, de 6-03-1958 o ministro da Marinha Américo Tomás propôs para o novo paquete o nome PRINCIPE PERFEITO, no âmbito das comemorações Henriquinas a realizar em 1960. Esta sugestão governamental seria seguida pela CNN e a 12-08-1959 procedeu-se ao assentamento da quilha do novo paquete, em Newcastle. O lançamento à água decorreu a 22-09-1960, sendo madrinha Dª. Ana Mafalda Guimarães José de Mello.
O PRINCIPE PERFEITO foi entregue ao armador a 31-05-1961, largando a 1-06 de Newcastle para Lisboa, onde entrou pela primeira vez a 4-06 sob o comando do capitão Cima Barreiros. Em 22-06, foi visitado oficialmente pelo Presidente da República, Almirante Américo Thomaz. Saiu de Lisboa em viagem inaugural à África Ocidental e Oriental a 27-06-1961, fazendo escalas no Funchal, São Tomé, Luanda, Lobito, Moçamedes, Cape Town, Lourenço Marques, Beira e Moçambique, tendo regressado a Lisboa em 00-11. O PRINCIPE PERFEITO fez o seu primeiro cruzeiro de 29-06 a 3-07-1962, (viagem Lisboa-Funchal-Lisboa, fretado à Agência Europeia, de Lisboa). De 19 a 30-10-1962: cruzeiro de Lisboa ao Mediterrâneo. 29-12-1962 a 2-01-1963: cruzeiro de fim de Ano ao Funchal. Em 6-07-1964, o PRINCIPE PERFEITO saiu de Lisboa conduzindo o Presidente Américo Thomaz em viagem oficial a Moçambique. Em 23-06-1967 o PRINCIPE PERFEITO foi utilizado para inaugurar o estaleiro da Lisnave na Margueira, juntamente com o INDIA. De 12-1971 a 01-1974, o PRINCIPE PERFEITO foi utilizado em diversos cruzeiros no Índico, com saída de Durban. 31-07 a 14-08-1971: cruzeiro ao Mediterrâneo (Lisboa, Nápoles, Pireu, Split, Veneza, Messina, Lisboa). 08 a 09-1972: 2 cruzeiros de 26 dias Lisboa, Halifax, Boston, Nova Iorque, Miami, Nassau, Kingston, San Juan, St. Thomas, Ponta Delgada, Lisboa. Em 29-01-1974 o PRINCIPE PERFEITO foi imobilizado em Lisboa, aguardando atracado ao cais da Fundição a atribuição de um subsídio pelo Governo que permitisse o regresso à carreira de África. De 21-05 a 14-06-1975 efectuou a viagem final a Angola após o que permaneceu imobilizado em Lisboa até 20-04-1976, quando largou para Newcastle. Em 07-1975 foi fretado ao IARN – Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais para alojamento de retornados de África.
Vendido em 04-1976 à companhia Global Transportation Inc., do Panamá, passando a chamar-se AL HASA e foi convertido para navio-alojamento (820 passageiros), em Newcastle por Swan Hunter Shiprepairs, largando a 14-06-1976 para Damman onde serviu de alojamento a estivadores durante 3 anos. Em 04-1979 o AL HASA foi comprado pela companhia Fairline Shipping Corporation (Sitmar Cruises, Mónaco), passando a chamar-se FAIRSKY. Em 06-1979 a Sitmar Cruises anunciou que o FAIRSKY seria transformado em navio de cruzeiros para 880 passageiros e 470 tripulantes, com entrada ao serviço no início de 1981. Para o efeito foi assinado um contrato com os Astilleros Espanoles devendo o navio ser reconstruido em Barcelona por 45 milhões de USD. Infelizmente, a 24-12-1979 este estaleiro denunciou o contrato alegando erro de estimativa dos custos envolvidos. O navio foi imobilizado em Iteia, Grécia, a 20-01-1980, passando a chamar-se VERA em 1980.
Em 1981 o navio foi vendido novamente, à Sappho Shipping & Trading Corporation S. A. Panamá (Bilinder Marine Corporation, do Pireu - armador John S. Latsis), passando a chamar-se MARIANNA IX e em 30-06-1982 chegou a Jeddah para servir de navio-alojamento. A 30-12-1982 foi transferido para Rabegh, continuando como navio-acomodação. Em 1984 alterou o nome para MARIANNA 9, mudando o registo do Panamá para a Grécia sendo a tonelagem alterada para 19 769 TAB, 11 230 TAL e 8 738 TPB. A 27-09-1986 chegou a Kalamata ido de Rabegh, para alojar vitimas de um terramoto, cedido ao governo Grego pelo armador. Em 4-03-1988 saiu do Pireu para Jeddah (13-03) e Rabegh (31-03). Terminado o serviço em águas árabes, o navio foi imobilizado no Pireu (Eleusis), em 30-12-1992. Colocado à venda em 1998, o antigo PRÍNCIPE PERFEITO acabou por ser vendido para sucata em 2001. O MARIANNA 9 chegou a Alang, India a 8-06-2001 para desmantelar.


 Curiosamente quando foi vendido pela CNN em 1976, ninguém se lembrou de proceder ao cancelamento do registo do PRÍNCIPE PERFEITO na capitania do porto de Lisboa, o que só foi constatado muitos anos mais tarde quando o armador do actual lugre PRÍNCIPE PERFEITO procedeu ao registo do seu navio, e lhe recusaram o nome alegando que ainda havia o paquete...

"...Deus ao Mar o perigo e o abismo deu, mas nele espelhou o Céu."
Fernando Pessoa 

Ficha Técnica
Navio de passageiros a turbinas, construído de aço, em 1959-1961. Nº oficial: H 476; Indicativo de chamada: CSBL. Arqueação bruta: 19.393 toneladas; Arqueação líquida: 10.618 toneladas; Porte bruto: 8.630 toneladas. Deslocamento leve / máximo: 11.570 / 20.200 toneladas. Capacidade de carga: 4 porões para 10.472 m3 de carga geral, incluindo 628 m3 de carga frigorífica. Comprimento ff.: 190,43 m; Comprimento pp.: 178,76 m; Boca: 23,96 m; Pontal: 13,57 m; Calado: 7,77 m. Máquina: 2 grupos de turbinas a vapor Pametrada, com 21 000 shp a 120 rpm (Máx. 24 270 shp a 128 rpm), 2 hélices. Velocidade: 21 nós. Passageiros: 1.000 (200 - 1ª., 264 em turística A, 536 em turística B) Tripulantes: 319. Custo: 500.000.000$00.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

INSANIDADE MARÍTIMA NACIONAL

                                 Foto: Costa Concordia no Porto do Funchal

Retirado do Blog dos Navios e do Mar

Passam-se coisas muito estranhas nos meios marítimo-portuários governamentais com medidas de aparente insanidade porque a sua aplicação prejudica os nossos interesses e denota uma forma irresponsável de gerir questões pontuais sem querer saber de consequências, navegando-se à vista até ao encalhe final.
Depois das tristes taxas do SEF - Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que entretanto foram adiadas durante seis meses, (mas o seu anúncio já fez estragos e manchou a imagem de Portugal no mundo marítimo internacional, ao querer impor a iniquidade mais original da desmaritimização, cobrando uma taxa aos tripulantes dos navios para desembarcarem em portos nacionais), agora reforça-se o clima de insanidade com a SANIDADE a impor uma taxa de €500 por navio que entre nos nossos portos, sejam quais forem as circunstâncias.
Em 36 anos de desmaritimização conseguiu-se com muito esforço e toda a inépcia possível praticamente erradicar os navios portugueses dos nossos portos e mesmo das rotas internacionais. Parece que os inimigos do mar ainda não estão satisfeitos, agora há que acabar de vez com a navegação estrangeira entre nós. Gente desta só recupera a sanidade mínima com uma sublevação...
 
A economia nacional está a ser posta em causa, Portugal tem urgentemente de se voltar para o mar, ter uma marinha mercante operacional, ter uma boa marinha de turismo e sobretudo reforçar a área da reparação e construção naval.
Não podemos continuar a depender de estrangeiros para esse fim. O governo de cavaco e os seguintes destruíram toda a nossa frota mercante, pescas e turismo a troco de uns pratos de lentilhas que vieram de Bruxelas. Agora o resultado tá a vista, gastou-se o dinheiro e não se investiu em actividades ou negócios que substituíssem os que estavam a ser extintos. 
Resultado... Desemprego e miséria.
 
Cumprimentos cordiais
 
Luís Passos